sábado, 15 de setembro de 2007

Teus olhos, menino



Teus olhos, menino


Teus olhos, menino,
se viram p'ra mim,
me estremeço assim;
qualquer resposta
que possa lhe dar,
nunca vai saciar seu olhar,
meu menino.
Até onde enxergas o mundo,
que imagem vislumbra
que não posso ver,
até onde alcanço
teu olhar profundo,
coisa mais linda,
meu pequeno ser.


Teus olhos, menino,
que fixamente,
penetram em tudo,
ancoram em mim
sem desatino;
nossos sonhos renascem
sempre tão cedo,
não tenhas medo,
a vida é bela,
e o mundo,
mais um brinquedo.

Mulheres-damas



Mulheres-damas


Sob a luz dos automóveis,
reluzem os batons das mariposas,
despertando a libido, muitos querem com elas,
por não terem em suas esposas.

Sob a luz dos néons da cidade,
brilham as noites da grande atriz;
Sob os corpos de qualquer idade,
tremula o corpo ofegante da meretriz.

Após o trago seco em mais uma cerveja,
depois de outra lida num dia de luta,
penetram em suas entranhas,
e descansam em seu leito de prostituta.

Nos anúncios estampados em qualquer jornal,
despertam a fantasia louca reprimida,
que cede ao impulso do desejo animal
e se atiram nos braços da mulher da vida.

Sob as sedas dos palácios de ouro,
debaixo dos retalhos de um tecido cafona,
cotadas, ostentadas, como um grande tesouro,
nos antigos mosteiros ou nos quartos de zona.

Desfilam entre a noite e seus bordéis,
a nova rameira, a messalina, a marafona,
atraem milhares deles, generais e coronéis,
traficando os prazeres e a inversão dos papéis.

Entre os companheiros clientes e o coito mercenário,
arranca da carne a vida e o salário,
antes que desperte uma nova manhã,
que inicia o sono da jovem cortesã.

Coração desplugado


Coração desplugado



Te vi chegar,
te vi sair,
tão linda na chegada,
tão bela na saída,
te vi chegando radiante,
te vi saindo,
que pena,
tão distante.

Redes, sinais, conexões,
trama, destrama,
a vida plugada,
mais uma,
mais outra madrugada,
da virtualidade dos nossos corações.

Navegante sem rumo,
nau sem prumo,
na esquina de Montes Claros,
com outra rua qualquer,
de qualquer parte do mundo,
te vi desaparecendo veloz,
a mais de megabytes por segundo.

Quantas doses de mentira,
quantas doses de verdade,
conectar-se, outra vez, à realidade,
nos perdemos, nos encontramos,
em apenas um bar da cidade
nos perdemos, nos encontramos,
nos nós atadas da virtualidade.

Apareceste como uma estrela,
foste como uma estrela,
dos céus reluzentes da trilha digital,
dos céus de néon da nossa fria capital;
no cruzamento, em alguma via real,
o desencontro, do descaminho virtual.

De uis e de ais


De uis e de ais


Terá sido de uis e de ais,
o suspiro escondido,
sob os finos lençóis,
no dossel dourado,
por trás dos portões
dos palácios imperiais?
o gemido dos nobres e burgueses,
sobre a fina messalina,
sob a renda dos seus enxovais?
o ranger daqueles dentes,
entre aranhas e serpentes,
sob as voluptuosas carícias sensuais?

Terá sido de uis e de ais,
os últimos gritos da boca trêmula,
da vulva rasgada,
estuprada pelas baionetas dos generais?
o amor recortado,
por qualquer trocado,
nas esquinas dos becos,
nas curvas dos corpos,
nas páginas amarelas
dos nossos jornais?

Terá sido de uis e de ais,
o estufar dos formosos seios,
na penumbra dos candeeiros,
pelo vinho derramado
sob a luz das velas dos castiçais?
a dança rítmica carnal,
trespassada no tempo,
eternizada a cada momento,
nos amores mortos
dos nossos ancestrais?

Terá sido de uis e de ais,
os partos das meninas-mães,
filhas abastadas
das melodias mercantilizadas,
do grande mercado dos carnavais?
a madrugada das virgens,
das primeiras-damas,
trancadas nas casas grandes,
nas casas brancas,
entregues à gula dos neocanibais?

Terá sido de uis e de ais,
o tremer da carne nua,
entre os dentes na nuca,
sob o clarão da lua,
envolta em macabros rituais?
o roçar no teclado,
com o olho vidrado,
pelos estímulos virtuais?
a dor dos santos queimados
a redimirem seus pecados,
pelos prazeres carnais?

Terá sido de uis e de ais,
o adormecer das donzelas,
sob a armadura de ferro,
dos senhores feudais?
as milhões de posições,
no leito das multidões,
consagradas nos antigos manuais?
o ventre sangrado,
coração apunhalado,
sob as espadas dos samurais?

Terá sido de uis e de ais,
o tremor que sacode a terra,
que inicia ou termina a guerra,
no gozo metafísico
dos amantes imortais?
o canto das sereias cativas,
seduzidas à morte,
pelas fervorosas tentações dos bacanais?
os amores plurifórmicos,
elípticos, disformes,
não encontrados nos volumosos anais?

Terá sido de uis e de ais,
o sono cortado,
o peito aberto, o vestido rasgado,
das antes, pobres vestais?
o amor selvagem, paleolítico,
sob o fogo da aurora dos tempos,
nos olhos dos velhos neandertais?

Nas nuvens


Nas nuvens




As gigantes nuvens do céu,
se entrelaçam, se enroscam,
criam formas infinitas,
brancos mosaicos de papel.

Desenhos múltiplos,
pelos contornos diversos da imaginação,
passeiam mil histórias,
entre os flocos de algodão.

Linhas telúricas, valsantes,
liberam os acordes,
na dança dos amantes.

Maravilhas reluzentes,
enfeitam poentes, traçam destinos,
despertam a fantasia,
dos velhos e meninos.

Telescópio





Telescópio


Quão grande é o espaço,
com suas infinitas formas infinitas,
seus astros luzentes, distantes,
seus mistérios abertos e inacessíveis.

Galáxias, estrelas, poeira cósmica,
sistemas solares,
qual o tamanho da distância,
que transforma o tempo em anos-luz?

Buracos negros, sistemas gravitacionais,
meteoros, cometas, asteróides,
dizimam gigantes jurássicos,
enquanto Vênus, de sua órbita divina,
dá vida e beleza aos antropóides.

Saturno do espaço, dos panteões,
gira em torno do sol, blefando das estações,
quando é planeta, brinca com seus anéis,
quando é deus, presenteia a criatura,
com a fartura sagrada das plantações.

Júpiter, o planeta gigante do sistema solar,
aplaca os Titãs, Soberano dos deuses,
Senhor dos céus, dos raios e trovões,
presenteia Netuno com o grande mar.

Oh! Poderoso Marte,
que entregaste aos homens a guerra,
envia agora, pelos céus, o cometa,
que levará a ti, ancoradouro seguro, fora da Terra,
a nova geração de sapiens - sem planeta.

Lógica ilógica






Lógica ilógica



A água,
a gota,
o oceano,
o marejo,
a chuva
alaga,
a inundação
a brisa
escorre,
o leito do rio,
a cascata,
o véu,
a corrente d'água,
o pingo
apaga
a mágoa
a lágrima do rosto

A impureza química,
o capital,
o lixo atômico,
as forças do mal,
a secura das fontes,
a lógica bestial
a água impura,
a mancha letal,
o iodo,
o esgoto que escorre,
a suja cidade,
o detrito,
o resto,
o preço da vida,
o cabresto,
a canga,
o paraíso roubado,
os aglomerados humanos,
o horizonte apagado.

Submersão


Submersão



Singram as águas dos oceanos e rios,
os peixes solitários, os incontáveis cardumes,
nos profundos mares quentes ou frios,
na beira da praia, debaixo do cais,
nos lagos rasos, nas zonas abissais.

Pescados, arraias, lambaris,
peixe-serra, atum, salmão,
nas águas do Norte, o surubim,
nas águas profundas, o tubarão.

A pequena piaba, a enorme baleia,
o peixe espada, o canto da sereia,
a truta, o cascudo, o peroá,
o infindo universo da vida,
protegido sob o manto de Iemanjá.

O Breve Reinado






O Breve Reinado


Naquela bela manhã
acordou radiante;
com os olhos embaçados
e o rastro dos sonhos,
ainda marcados,
nas rugas do semblante,
despertou como quem desperta,
pela primeira vez.
Percebeu que ao redor de si,
outro mundo se fez.

Naquela nova manhã,
de largos horizontes abertos em glória,
dominando o mundo,
contorcendo os caminhos da história,
nascia a poderosa princesa,
anexando impérios,
com sua infinita beleza.

Num tempo distante,
em terras ainda ignoradas,
acordava como senhora absoluta
de desertos de areia, de bosques e prados.
Sereia das águas, ainda não navegadas.

Erigindo mil castelos,
voando em cavalos alados,
incorporando todos os domínios,
esmagando sob as botas, os vivos,
na mira de seus sonhos dourados.

Naquela ácida manhã,
ao despertar a princesa,
elimina os fracos,
convoca os bravos,
arrebenta as muralhas,
capturando escravos.

Ao acordar tão forte,
assenhorando todos os limites,
dos cantos dos sonhos, de sul a norte,
prossegue ignorando todos os palpites,
que não venha das vozes da Corte.

Às vozes silentes, o silêncio eterno,
às vozes discordantes, o gelo, o degredo.
De nada vale o apelo,
para que rompa das trancas, o segredo.

Vence as batalhas,
silencia os canhões,
faz rolar as cabeças
no corte das lâminas-navalhas,
girando entre as multidões.

Sacerdotisa das divindades do sol,
lança seus raios sobre o mundo,
mata os vivos, os mortos sem memória,
atirando-os na vala, do silêncio profundo.

Rainha das terras,
Senhora dos mares,
Arco-íris no céu,
esconde os tesouros,
ilumina os altares.

Majestade Suprema
de repente escorrega,
no meio da noite;
e sente o frio,
da beira do rio,
onde a bela manhã
é apenas passado,
em seu sonho de rã.

Lápide do lavrador





Lápide do lavrador


Aqui nesta terra seca
Neste pedaço de chão
Esvai-se a vida inteira
Na luta árdua pelo pão.

Aqui pela luta inglória
Por esta terra ingrata
Que mata a semente
Guardo meu corpo
Sepulto a memória.

Por sob agora
O pesado torrão
Adormeço neste leito
O peito
Que guarda trancado
O velho coração
Desfaleço ao lado dos meus
Entre fendas da terra adorada
Entre os veios
da terra conflagrada
Levo o peso da enxada
Os apelos das preces
Em oferenda da Deus.

Aqui entrego à velha terra
Meu maior e findo milagre
Repousarei no topo da serra
Sob a funda cova que se abre.

Aqui no abraço da grande mãe
Vai-se pela fome ou pela peste
A miséria ancestral e profunda
Que cega meus olhos de agreste

Muitos jovens, também os filhos,
Vários deles, dobram-se assim,
Pobres sedentários ou andarilhos,
Nessa grande seca sem fim.






Êxodo





Êxodo


Pelos caminhos de terra,
Por onde pisam os pés de Maria,
Percorrem muitos pés
À procura da liberdade fulgidia.

Marcham outra vez,
Com os pés duros,
Com destino à Terra Prometida,
Abandonam seus lares
Alagam seus olhos
Na hora da partida.

Sonham o sonho esperado
Da terra farta, de leite e mel,
Levantam a foice, sonhando acordado,
Na luta por um lugar ao céu.

Mais uma vez, porém,
O brio, a dignidade ultrajada,
Os filhos dos filhos também expulsos,
Da exuberante terra sagrada,
Terra adorada,
Por que é mãe desgarrada?

Teus órfãos perdidos, pobres bandidos,
Embriagados, mal dormidos,
Irão perturbar os teus sonhos,
Dos teus sonos desprotegidos.

Ante a última esperança desiludida,
A fúria dos novos bárbaros, incontida,
Penetrará pelo asfalto, atrevida,
Levantando pelos caminhos,
Enormes muralhas (neo)medievais;
Aprisionando velhos cidadãos
Em grandes gaiolas de ouro
Nas fétidas capitais.


Marcos Vinícius.

Heresia


Heresia


Quando vamos ver o céu se abrindo
os cantos dos anjos anunciando os sinais
ver todo o mundo criança sorrindo
e a fartura ganhando nossos quintais.

Teremos que pular quantos carnavais
rogar para ver o mar se abrindo
a natureza, em êxtase, florindo,
matando a fome nos canaviais.

Talvez, seja, quem sabe até necessário,
subverter a lógica do tempo,
levar à loucura o calendário.

Quantas virgens mais
teremos que sacrificar
Quanto sangue do filho
ainda há que derramar

Quando a terra, então, se rasgará
devorando a miséria, a luxúria e a cobiça,
quanto ainda teremos que lutar,
pra ver reinar - a liberdade e a justiça.

Terra



Terra


Nesta terra divina
dava de tudo e um pouco mais
reinavam os homens
no solo sagrado de seus ancestrais
Na velha terra dos papagaios
dos gatos, saguis e outros animais
reinavam os bichos,
na floresta, no cerrado, nos matagais.

A grande mãe dos povos índios,
sacralizada a cada ritual
a terra virgem de filhos livres,
floresceu bem antes dos tempos de Cabral.

Outros ventos, porém, sopraram
e aportaram alheios desígnios
do distante reino de Portugal.
Outros pés ancoraram
desembarcaram com intuitos malignos
e a fé no novo deus capital.

Arrastando pelos mares
os pesado grilhões
Os antigos povos nativos
nos caminhos do ouro
no interior dos porões
são os novos cativos
que acendem a chama das revoluções.

Nesta terra divina
eternizada pela mão leve pesada do lavrador,
paga-se pela sina
de carregar em suas veias, suas fendas,
os ecos dos gritos de dor.

Nos limites da vida,
as infinitas cercas de arame;
no delírio dos tempos,
sepultada a fantasia do mundo,
esconde-se a fonte mágica e fecunda
encarcerada no latifúndio.

Povo escravo, estropiado
de peito cortado e chibata no lombo
arrebenta as correntes
e inventa o quilombo.

Nas multidões de Antônio Conselheiro
a resistência da vida
em não se dobrar por inteiro
o grande sonho enfim
de se livrar do cativeiro.

Sobre a terra, então, conflagrada
plantou-se um golpe militar
e sob a benção da pátria amada
em nova ordem, o progresso era matar.

A vida pois, resiste,
de pés duros sobre a terra quente
com ombros de calos, o peso da enxada
na mão enrugada, o sonho da semente
o parir eterno dos dias,
no ventre da madrugada.

Os filhos deste solo, a mãe gentil
protege em seu colo, a débil pátria varonil
carregando em seu seio, o 'não matarás'.
Nunca mais Corumbiara,
Nunca mais Eldorado dos Carajás.



Marcos Vinícius.

Paraíso estropiado




















Paraíso estropiado


De muito longe vieram os homens
Até a terra avistar
Com muita sede de prata e ouro
E o desejo enfim, de escravizar.
Traziam a angústia do tempo
No interior da grande nau
Exibiam os braços de ferro
Expunham a cara de pau.


Traziam a rota traçada
Dos palácios de qualquer Portugal
Traziam a história manchada
A receita do pacto colonial
Vinham rasgando em sulcos profundos
O gigantismo dos oceanos
Desbravando novos mundos,
E carregando a morte
Em seus ambiciosos planos.


De muito longe vieram os homens
Arrastando pela terra mil bacamartes e canhões
Mapeando seus rumos à vela
Rodando pelo planeta que nem peões.
De campos distantes, vinham com estandartes,
De baionetas em punho e o poder imperial
Traziam escravos e correntes
O alvorecer de uma era,
Uma nova moral.
De punhos cerrados, carregavam a cruz
Caçavam nativos com arcabuz
Matando Pacha Mamma
Em nome de Jesus.


Vinham das águas do além
Nos olhos, a ressaca dos sonhos de mil eldorados
Nos passos trôpegos, pelo balanço da águas,
Descortinavam o delírio dos mares
"Nunca dantes navegados".
Sepultaram o descoberto inimigo
Em suas velhas montanhas de prata
Mancharam de sangue os rios, os veios da terra
Expulsaram com o fogo,
Eternos deuses da mata.

Os corpos negros nas valas do oceano
Tragados com fúria pelo mar tenebroso
Desafiam o tempo e já eram o prelúdio
De uma nova ordem
De um destino impiedoso
Tecidas, então, ficaram
as teias do sistema mundial
Com o sangue arrancado das veias
Sobre o nó umbilical
Pois já nasciam sedentos
A peste nova e o menino capital.



Marcos Vinícius